Vestido
Chegou em casa com um olhar diferente daquele de fadiga, mas ela não soube decifrar o segredo. Deu-lhe um beijo cronometradamente às seis e trinta e continuou com seus estudos. Ele, por sua vez entregou-lhe em mãos uma sacola e foi tomar seu banho. Foi aí que desvendou todo o mistério daquele olhar. Não era um presente qualquer, era um vestido. Um vestido é um convite para realçar o maior nível da feminilidade da mulher. E foi o que ela sentiu. Quis retribuir da melhor forma possível, pois se sentiu mulher. Ele a fazia mulher. Já dançando com a peça no seu corpo, dirigiu-se ao quarto. Tinha 23 minutos para se organizar até o chuveiro desligar. E não ia perder tempo com livros e cadernos. Havia tomado banho há pouco e estava só complementando ali. Se cobriu com a essência da qual ele mais gostava e, como se não bastasse o cetim, trocou seu algodão por uma renda discreta. Não poderia esquecer do salto alto, claro. Se arrumou como um confeiteiro cobre um bolo. Acendeu algumas velas para dar um clima a mais, queria algo diferente. 8 minutos. Voltou para a sala, esperaria lá. Ele cantava baixinho, era impossível reconhecer a canção. Apreensiva, ela não conseguiu esperar. Invadiu toda a intimidade dele. Ele a olhou dos pés a cabeça e sorriu. Um elogio bastou. Não se contiveram e por ali mesmo deram início a noite que se repetiria por muitas vezes, sem planejar. Ao acordar o que encontraram era somente livros, cadernos e um vestido no corredor. A essência de priprioca foi substituída pelo da vela queimada. E começava então mais um dia comum.







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