Esperar...

...uma ligação, o elevador descer, uma criança nascer, a sua vez de falar, o bolo assar, encontrar o grande amor, o ônibus, um dia virar noite, a chuva passar, receber o dinheiro do mês, o momento de entrar em cena, a água ferver, o sol aparecer, o diagnóstico, o eclipse total, o sinal bater, o microondas apitar, o final do filme, a bateria acabar de carregar, a correspondência chegar, o semáforo abrir, a maioridade, a sopa esfriar, a revelação da foto, os nervos acalmarem, o sono bater, a hora de pedir perdão, o resultado da prova, uma carta chegar ao destino, uma resposta, o fim da festa, a tinta secar, o chuveiro esquentar, as lágrimas acabarem, um sorriso de volta...

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Casar

  • Não consigo falar essas coisas. Eu te amo muito. Te amo muito mesmo. Se pudesse, me casava agora. (M.R.R.)
Quando eu não tinha ninguém do meu lado, foi seu o primeiro abraço que eu recebi. Literalmente e conotativamente. Um dia então te falei que não sabia como eu poderia, se é que eu poderia, retribuir tudo de bom que você durante alguns meses me proporcionou. Depois de um longo tempo, quando surgiu a ideia de um possivel namoro, eu disse que não podia aceitar, por ser incapaz de retribuir tudo isso e meio que acabar em quase que uma relação desarmônica. Hoje, já aceitando tal ideia, posso falar que minha visão é outra completamente diferente. Já vejo que eu não tenho que retribuir nada, que eu preciso é compartilhar. É questão de troca. de harmonia, de sintonia. E eu acho que o casamento não poderia simbolizar melhor isso que estou tentanto dizer. A gente passa a viver junto tudo de bom. Ninguém dá sem receber e vice-versa. A gente colhe junto o que a gente plantar.

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Vestido

Chegou em casa com um olhar diferente daquele de fadiga, mas ela não soube decifrar o segredo. Deu-lhe um beijo cronometradamente às seis e trinta e continuou com seus estudos. Ele, por sua vez entregou-lhe em mãos uma sacola e foi tomar seu banho. Foi aí que desvendou todo o mistério daquele olhar. Não era um presente qualquer, era um vestido. Um vestido é um convite para realçar o maior nível da feminilidade da mulher. E foi o que ela sentiu. Quis retribuir da melhor forma possível, pois se sentiu mulher. Ele a fazia mulher. Já dançando com a peça no seu corpo, dirigiu-se ao quarto. Tinha 23 minutos para se organizar até o chuveiro desligar. E não ia perder tempo com livros e cadernos. Havia tomado banho há pouco e estava só complementando ali. Se cobriu com a essência da qual ele mais gostava e, como se não bastasse o cetim, trocou seu algodão por uma renda discreta. Não poderia esquecer do salto alto, claro. Se arrumou como um confeiteiro cobre um bolo. Acendeu algumas velas para dar um clima a mais, queria algo diferente. 8 minutos. Voltou para a sala, esperaria lá. Ele cantava baixinho, era impossível reconhecer a canção. Apreensiva, ela não conseguiu esperar. Invadiu toda a intimidade dele. Ele a olhou dos pés a cabeça e sorriu. Um elogio bastou. Não se contiveram e por ali mesmo deram início a noite que se repetiria por muitas vezes, sem planejar. Ao acordar o que encontraram era somente livros, cadernos e um vestido no corredor. A essência de priprioca foi substituída pelo da vela queimada. E começava então mais um dia comum.

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