Vestido

Chegou em casa com um olhar diferente daquele de fadiga, mas ela não soube decifrar o segredo. Deu-lhe um beijo cronometradamente às seis e trinta e continuou com seus estudos. Ele, por sua vez entregou-lhe em mãos uma sacola e foi tomar seu banho. Foi aí que desvendou todo o mistério daquele olhar. Não era um presente qualquer, era um vestido. Um vestido é um convite para realçar o maior nível da feminilidade da mulher. E foi o que ela sentiu. Quis retribuir da melhor forma possível, pois se sentiu mulher. Ele a fazia mulher. Já dançando com a peça no seu corpo, dirigiu-se ao quarto. Tinha 23 minutos para se organizar até o chuveiro desligar. E não ia perder tempo com livros e cadernos. Havia tomado banho há pouco e estava só complementando ali. Se cobriu com a essência da qual ele mais gostava e, como se não bastasse o cetim, trocou seu algodão por uma renda discreta. Não poderia esquecer do salto alto, claro. Se arrumou como um confeiteiro cobre um bolo. Acendeu algumas velas para dar um clima a mais, queria algo diferente. 8 minutos. Voltou para a sala, esperaria lá. Ele cantava baixinho, era impossível reconhecer a canção. Apreensiva, ela não conseguiu esperar. Invadiu toda a intimidade dele. Ele a olhou dos pés a cabeça e sorriu. Um elogio bastou. Não se contiveram e por ali mesmo deram início a noite que se repetiria por muitas vezes, sem planejar. Ao acordar o que encontraram era somente livros, cadernos e um vestido no corredor. A essência de priprioca foi substituída pelo da vela queimada. E começava então mais um dia comum.

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Sentir

  • Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados. Difícil é sentir a energia que é transmitida. Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa. (Carlos Drummond de Andrade)

Poderia levar para o lado do substativo, mas não, quero o verbo mesmo. Hoje senti sua presença, mesmo estando longe. E foi por ela que não me precipitei com certas atitudes. Se me comparasse a um desenho animado, seria como o anjinho falando ao pé do ouvido. Quem dera fosse você fazendo isso. Mas eu senti, não o arrepio de costume, mas eu senti. E foi com isso que eu vi a forte e perigosa ligação que há entre duas mentes. Sem medo, pense pelo lado bom. Imagens podem dizer muito mais que imagina! Enfim, não é um texto qualquer, é bem pessoal. Não é do meu feitio fazer isso, você sabe melhor que ninguém. Mas é isso. Senti a delícia de poder sentir que tanto Manuel Bandeira queria. Deve ser a pessoa certa. Quero manter essa mesma energia.

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Pergaminho

  • As pessoas tendem a colocar palavras onde faltam ideias. (Goethe)

Antes de começar, deu o último gole no seu chocolate quente. Sim, estava frio, mas somente  na temperatura ambiente. Seu corpo se encontrava tão quente quanto o ferro de passar que esquecera ligado na semana anterior. Queimara sua única seda, uma camisola bonina. Mas acho que isso só vem ao caso para ela mesma. Sempre se remetendo ao passado. Pronto, estava ali. Luz baixa, som alto. À sua frente a mesa. À mesa uma folha de papel e uma caneta de nanquim. Imaginou-se na Idade média, com sua tinteiro e um novo pergaminho. Tinha um olhar quase biônico. Conseguiu enxergar algumas pouquíssimas gotículas de seu chocolate no canto inferior esquerdo da folha. Sem importância alguma. Posicionou então sua pena, digo, caneta, entres seus dedos já suados. Um risco trêmulo se fez no papel. Não fazia ideia do que escrever. Tinha medo das palavras assim como tinha de altura. Desligou o rádio e nem assim conseguiu. Horas na mesma posição e nada se desenvolvia. Desistiu. Seu risco trêmulo se transformou numa espiral que tomou toda a folha em questão de segundos. Era um desenho confuso, como sua ideias. Acabou por dizer tudo, sem palavras. Sem palavras.

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