Maturidade

  • A idade não nos protege contra o amor. Mas o amor, até certo ponto, protege-nos contra a idade. (Jeanne Moreau)

Um grande campo. A grama alta tão verde quanto os olhos dela. As flores amarelas exalando um perfume incomum. O sol forte se mostrava cruel, mas a sombra do grande pinheiro os protegia. E nem assim ofuscou o anil do céu que abrigava somente alguns poucos algodões-doce. Aos pés da grande árvore, além da paz e tranquilidade, também era possível sentir um doce vento que fazia a grama alta balançar. Foi possível também perceber que não estavam sozinhos. Os pássaros assobiavam no mesmo tom com que um dia ele cantarolou a primeira canção. Deixa estar. Ainda entrelaçados sob a grande árvore e sobre a grama alta estão os dois, saboreando o doce vento.  E desafiando sua garota, ele olha bem no fundo de seus olhos, deixando-a sem resposta. Ela então faz como já fazia há 50 anos: esconde à sua maneira o verde vivo. Olhe por olhar e não por ter que olhar. Fez-se uma piscina em seus braços e ela mergulhou, sem medo de afogar. Não houve sequer a necessidade de dizer nada. Os 50 anos diziam por si só.

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Disritmia

Todos juntos. 1. A semana inteira ouvi a mesma música. 2. Isso me fez desejar coisas loucas. Comecei então a imaginar como seria o momento. 3. Primeiro lembrei como me escondia debaixo das suas saias pra fugir do mundo. 4. Depois me lembrava de como transfundia teu sangue pro meu coração vagabundo. Posso ter um pouco mais? E com um dengo aqui, um cafuné ali, a afinidade se transformava em vontade 5. Foi assim que fez meus apelos. 6. Sem mais. 7. E pra acabar com essa anomalia num ritmo que não é mais meu... 8. Fui exorcizada, 9. fotografada e 10. hipnotizada. Eu te amo!

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Desarranjo

E alguns guardam os belos domingos em família, as tardes no parque, os fins de semana na praia, o primeiro beijo, o momento em que assumiram que se amavam. Mas isso poderia ser qualquer um, pois são apenas momentos felizes. Outros, só quem realmente gosta, poderia fazer parte e demonstrar tudo isso. Acho que não estou me sentindo bem. Imóvel. É, não estou legal mesmo não. Perdendo melanina. Você pode me acompanhar? Superfície. Minha cabeça tá rodando. Movimento harmônico nada simples. Sentindo uma dor estranha no corpo. Peso. Me ajuda a tirar minha blusa? Tá muito quente aqui. Calor. Minhas pernas estão bambeando. Fraqueza. Jura que tá fazendo frio? Mas até suando estou! Glândulas sudoríparas agindo. Espera, não me abraça não... Falta de ar. Coloca a mão no meu peito. Sentiu? Alta frequência. Pode me servir um copo de água? Uma garrafa, é melhor. Maior fluxo sanguíneoPreciso comer um pouco. Me acompanha? Tentativa de se erguer. Ai, minha vista tá escurec... Por alguns segundos, não vi nada, mas conseguia ouvir tudo. E seu despero me deu forças para me recuperar e não te ver daquele jeito mais. Calma, por favor. Não é nada demais. Isso, me dê suas mãos, mas não chora. Eu também te amo. E não poderia dizer outra coisa que não fosse isso. Recuperação. Estou bem, já passou. Minha pressão caiu. Mas consegui ouvir tudo e senti você comigo.  Foram os 102 segundos mais lindos com você. Eu te amo.

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Alucinação

  • Minha alucinação é suportar o dia-a-dia, e o meu delírio é a experiência com coisas reais. (Belchior)

Madrugada, 04:07: Era um filme francês de um escaravelho japonês. (Preto e brando, por favor.) Desesperado e infeliz, ele sai de um colchonete e grita: (Cores...) Tylenol! Acaba de nascer mais um distúrbio. (Sem cores.) Caminha com suas 7 patas, ergue suas antenas e sintoniza na rádio de sua preferência. (Mudo, para não me confundirem os sons) Algumas milhas de distância, alguém pode lhe ouvir: (256 cores.) Leia! Leia nas estrelinhas, ouça as entrelinhas. Ouçam também o cheiro de chuva, vejam os sons do avião no céu. Oh céus! (P&B) Estou num mausoléu. O rádio ainda toca, na mesma estação, mas agora chia. (Desligue-o e volte-me os decibeis) O escaravelho corre para a janela. (Nitidez -) Um tabuleiro estacionado sai, lhe dá passagem. Dali vê muitas coisas, reais ou não. (Nitidez +) Tem medo do real, adora o ou não. (16 bits) Balas de goma caindo, uma cachorra epilética correndo entre os epitáfios. Não consegue parar de rir. Observa então a lua quadrada e todas as imagens que ela lhe permite criar. Com a força da mente, faz como Moisés, porém no céu. (Máxima: 32 bits) Um chuva de flores. E assim morre, de tão velho, nosso amigo escaravelho. Aquele que pensava em contar suas peripécias ao mundo. Virar protagonista de um filme, para não se perder no tempo. Tempo, tempo, perdi o meu... Atrasado para o dia-a-dia. Acaba de passar um filme na minha cabeça.

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