Alucinação

  • Minha alucinação é suportar o dia-a-dia, e o meu delírio é a experiência com coisas reais. (Belchior)

Madrugada, 04:07: Era um filme francês de um escaravelho japonês. (Preto e brando, por favor.) Desesperado e infeliz, ele sai de um colchonete e grita: (Cores...) Tylenol! Acaba de nascer mais um distúrbio. (Sem cores.) Caminha com suas 7 patas, ergue suas antenas e sintoniza na rádio de sua preferência. (Mudo, para não me confundirem os sons) Algumas milhas de distância, alguém pode lhe ouvir: (256 cores.) Leia! Leia nas estrelinhas, ouça as entrelinhas. Ouçam também o cheiro de chuva, vejam os sons do avião no céu. Oh céus! (P&B) Estou num mausoléu. O rádio ainda toca, na mesma estação, mas agora chia. (Desligue-o e volte-me os decibeis) O escaravelho corre para a janela. (Nitidez -) Um tabuleiro estacionado sai, lhe dá passagem. Dali vê muitas coisas, reais ou não. (Nitidez +) Tem medo do real, adora o ou não. (16 bits) Balas de goma caindo, uma cachorra epilética correndo entre os epitáfios. Não consegue parar de rir. Observa então a lua quadrada e todas as imagens que ela lhe permite criar. Com a força da mente, faz como Moisés, porém no céu. (Máxima: 32 bits) Um chuva de flores. E assim morre, de tão velho, nosso amigo escaravelho. Aquele que pensava em contar suas peripécias ao mundo. Virar protagonista de um filme, para não se perder no tempo. Tempo, tempo, perdi o meu... Atrasado para o dia-a-dia. Acaba de passar um filme na minha cabeça.

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